"Hands on", Are you?
Max Gehringer
Hoje resolvi criar um blog, depois de anos sem querer entrar nesse "modismo" (apesar do twiter ser a "nova onda" do momento).É incrível como ficamos afastados das coisas durante certos períodos da vida e também é incrível como nos voltamos a essas coisas...
Recebi um e-mail hoje de um amigo com o esse título: "Hands on", e parei para pensar no conteúdo dele.
Depois de uma cirurgia no tornozelo, 2 meses deitado em uma cama, 8kg mais magro e alguns dias de fisioterapia o que eu mais queria era voltar a trabalhar. Ahhhh... como eu queria...
É fantástico como somos, trabalhamos muito e queremos não fazer nada, pedimos férias... ficamos muito tempo em casa parados, nos sentimos de certa forma "inúteis" e queremos trabalhar. 3 meses de "férias" forçadas eu não via a hora de voltar a trabalhar e para minha surpresa voltei mas fui "convidado" a voltar para casa novamente, só que dessa vez sem emprego. A vida é uma caixinha de surpresas, mas o bom da vida é que ela sempre nos ensina e podemos analisar as coisas de muitos ângulos, vários pontos de vista e isso é fantástico.
Fui "forçado" a começar a procurar um "espaço" no mercado de trabalho novamente. Trabalhei praticamente metade da minha vida, farei 30 anos em 4 dias, com informática. Desde os tempos das redes coaxiais, dos primordios 386, 486, nossos super hds de 540mb, as memórias de 8mb, DOS, OS2, Win 3.x, WinNT, Win2k, Win2k3, Win2k8, Novell 5, SCO, Linux Guarani, RHEL, HPUX, Barata Eletrica, Axur05... e por ai vai.
Passei anos ajudando pessoas no IRC da rede-rs e brasnet (e aprendendo também), nos canais de software livre, sistemas aberto, sistemas Microsoft, warez e por ai vai... Madrugadas a dentro nos foruns da underlinux, colaborando e aprendendo com milhares de mentes famintas por informação... Diversos conteúdos postados na antiga slacklife (meu apelido era cdrom) e anos aprendendo através de livros (caros na época), yahoo, google e cursos diversos.
Desde o tempo que comecei a trabalhar com isso, por volta de 1996, não haviam faculdades que ensinavam algo de útil (vamos assim se dizer) no campo da informática (hoje Tecnologia da Informação), nos meados do ano 2000 era muito mais prático e útil as certificações e cursos dos produtos ao qual se desejava trabalhar: Microsoft, Novell, Oracle, HP, IBM, etc. Independente do produto, você não encontraria conhecimento nas faculdades e hoje, ainda me pergunto se encontramos isso lá...
Nesse tempo um certificado Microsoft pesava muito mais do que uma faculdade e, claro, seguindo a lógica da deficiência das Universidades isso era de total compreensão, mas, os tempos mudaram. É claro, comecei a cursar uma em meados de 2002~2003 pois trabalhava em uma faculdade e só queria um diploma. Confesso que não assisti 1 aula, pois tudo que estavam ensinando na faculdade eu já sabia, já tinha aprendido ou nesses meus anos de experiência em diversos clientes ou nos mais de 40 cursos que fiz voltados aos produtos.
Sempre fui uma pessoa muito "tecnica" e gostava de trabalhar com os computadores, tá aí a importancia de se fazer uma faculdade (lidar com pessoas), hoje estudo psicoterapia, filosofia, psicologia e outras coisinhas mais "humanas" e acho muito legal.
Sempre fui uma pessoa muito "tecnica" e gostava de trabalhar com os computadores, tá aí a importancia de se fazer uma faculdade (lidar com pessoas), hoje estudo psicoterapia, filosofia, psicologia e outras coisinhas mais "humanas" e acho muito legal.
Resumindo, não terminei a faculdade e hoje vou ter que começar a fazer uma novamente, pois o mercado de trabalho "exige" para que você possa trabalhar.
Vejam, não sou contra se fazer uma graduação, muito pelo contrário, acho que a faculdade tem papel importante na formação das pessoas pois, nela, você aprende a conviver com outras pessoas e isso é fundamental em uma empresa. Porém, ainda sou da filosofia de que se "por a mão na massa" e solucionar problemas, principalmente tecnicos, são mais importantes que um certificado de graduação (vão entender ao ler o texto). É como aquela velha piada sobre 3 candidatos que são entrevistados e perguntam sobre qual a coisa mais rápida do mundo, sabem? O contratado no final é o cara que diz "a diarreia". Realmente, você precisa entender de "cagadas" para resolver problemas, ou seja, tem que ser prático e resolver os problemas não debater quem o fez.
Bom, dei essa volta toda para chegar ao título desse meu primeiro post, mas o fiz para que se entenda o que eu quero dizer (e o que, no meu ponto de vista, o e-mail quer dizer).
Você é Hands on?
Max Gehringer (Colunista Revista EXAME)
Max Gehringer (Colunista Revista EXAME)
Vi um anúncio de emprego. A vaga era de gestor de atendimento interno, nome que agora se dá à seção de serviços gerais. E a empresa exigia que os interessados possuíssem - sem contar a formação superior - liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem hands on. Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico. Não que esse fosse algum exemplo fora da realidade. Pelo contrário, é quase o paradigma dos anúncios de emprego. A abundância de candidatos permite que as empresas levantem cada vez mais a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido.
E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm as agruras da super-qualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico...
Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges Gerente da Contabilidade.
* Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
* In a hurry!
* Saúde.
* Não, isso quer dizer "bem rapidinho". É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?
* E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
* O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática.
* Não, não. Cópias normais mesmo.
* Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos.
* Fabiana, desse jeito não vai dar!
* E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.
* Como assim?
* É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdício do meu potencial energético.
* Olha, neste momento, eu só preciso das três có...
* Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
* Futuro? Que futuro?
* É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não aconteceu nada.
* Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada!
* Sei. Mas o senhor é hands on?
* Hã?
* Hands on.. Mão na massa.
* Claro que sou!
* Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada.
Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:
1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas.
2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.
Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. Em um a empresa em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado confundiria nossa salinha do café com a Fundação Alfred Nobel.
Pessoas superqualificadas não resolvem simples problemas!
Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas Fábricas e no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van.
E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha informática e energia e criatividade e estava fazendo pós-graduação. Só que não sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos ele falava "nóis vai" e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida.
Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas torcem o nariz - O que é capaz de resolver, mas não de impressionar.
Achei bom o texto dele e deixo aqui as perguntas: até quando as empresas vão querer a "imagem" maquiada? Será que um dia elas vão realmente se preocupar com a "imagem verdeira" dos seus candidatos?
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Murilo "Cabelo" Vitorino